Osteoartrite em felinos


Por Lilia Wang em 12/06/2017 16:14 | Comentários: 0

A osteoartrite (OA) é uma doença comum, lenta e progressiva. É  definida como um processo não inflamatório das articulações móveis (sinoviais), causada pela deterioração da cartilagem em associação à produção de osteófitos. Não se deve confundir doença articular degenerativa (DAD) com osteoartrite. A DAD é um termo mais abrangente que inclui todos os tipos de doenças articulares degenerativas em qualquer tipo de articulação (ex.: espondilose deformante dos discos intervertebrais – articulações não sinoviais).

O principal fator de risco na OA observado em diversos estudos é a idade (idade média de gatos afetados é de 10,2 anos). A obesidade é um fator importante mas ainda não confirmado em gatos. Em humanos, a obesidade tem sido implicada diretamente na etiopatogenia da OA por contribuir na inflamação sinovial e nos danos em condrócitos. 
O tecido adiposo, considerado atualmente como glândula endócrina e um importante orgão secretor, libera muitas citocinas (IL-1, IL-6, TNF-alfa) e hormônios específicos de gordura (leptina e adiponectina) associadas à degeneração de cartilagem.  Lascelles et al. observou forte associação entre DAD e níveis sanguíneos de colesterol em gatos, podendo refletir a influência do metabolismo lipídico e o desenvolvimento da OA. 

As manifestações clínicas são difíceis de diagnosticar, pois, os gatos normalmente não apresentam claudicação e são capazes de ocultar a dor ou desconforto. É importante avaliar o comportamento e estilo de vida do animal diante um exame ortopédico minuncioso. Muitos proprietários associam o problema ao envelhecimento, não levando em consideração a dor, a diminuição das atividades como pular, subir escadas, “grooming”, urina e fezes em locais inapropriados e letargia. As articulações do cotovelo e quadril são as mais afetadas e a maioria dos gatos apresenta envolvimento bilateral. A radiografia pode avaliar a gravidade e determinar a causa, quando evidente, no entanto, não se pode correlacionar o grau de dor e disfunção que o animal sente com os achados radiográficos.

O tratamento é considerado um desafio pois, muitos gatos apresentam doenças concomitantes, principalmente algum grau de doença renal crônica. Desta forma, muitos veterinários ainda tem receio em utilizar anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) nestes animais por seu potencial nefrotóxico. Contudo, a efetividade do meloxicam para tratar dor crônica em gatos com artrite já foi comprovada em diversos estudos. Sua biodisponibilidade é de aproximadamente 80% quando administrado por via oral sendo que até 79% do fármaco é eliminado pelas fezes e apenas 21% eliminado pela urina. Gowan et al., 2011, demonstrou que o meloxicam, pode, na verdade, ter um efeito benéfico na função renal em gatos idosos. O grupo de gatos com doença renal tratados com meloxicam apresentou menor aumento de níveis séricos de creatinina comparados aos gatos com doença renal não tratados com meloxicam. Este resultado pode ser indireto. A melhora na mobilidade e qualidade de vida relacionadas ao alívio da dor teve como resultado melhora de apetite e da hidratação e diminuição do catabolismo. Outra possiblidade é que o meloxicam tenha ação anti-inflamatória direta nos rins, levando a redução da inflamação intersticial e fibrose que de outra forma causaria a deterioração da função renal. É importante ressaltar que  são necessários exames de sangue e urina antes de iniciar a terapia com AINE e respeitar a posologia recomendada para gatos. O monitoramento da pressão arterial também é essencial, pois, a inibição do COX nos rins pode exarcerbar a hipertensão. Se o gato que estiver recebendo AINE parar de comer ou beber, o medicamento deve ser suspendido imediatamente. Os AINES apresentam elevada ligação proteica e seu uso concomitante com  outros medicamentos pode levar ao aumento de seus níveis no sangue e consequentemente aos seus efeitos adversos. Neste caso, sua dose deve ser reduzida pela metade. Em humanos, o uso de inibidores da ECA e/ou diuréticos juntamente com o AINE aumentou significativamente o risco de nefrotoxicidade. Sendo assim, maiores cuidados são necessários em gatos com terapia semelhante.

Outros tratamentos podem ser usados concomitantemente com efeitos sinérgicos, como, por exemplo, a gabapentina, tramadol e a amitriptilina. Os efeitos de opióides (butorfanol, buprenorfina, fentanil) são limitados e ainda não possuem licença para uso em felinos.

Dietas ricas em ômega-3 podem reduzir a inflamação e dor na OA e podem ser usados juntos com os AINES. Há também uma pequena evidência no uso da glucosamina e condroitina.

O enriquecimento ambiental é um dos fatorers mais importantes a ser considerado em associação ao uso de medicamentos apropriados, por melhorar muito a qualidade de vida do animal. A disponibilização de mais de uma tigela de água em locais distintos ao da comida não é menos importante, como também a oferta de rampas ou escadas para facilitar o acesso a camas, sofas, janelas e etc. A realização de exercícios físicos e mentais também são fundamentais. Os arranhadores devem ser sempre disponibilizados, principalmente os horizontais, pois, estudos mostram que esta é uma preferência dos animais idosos. Por último, não podemos esquecer de adaptar a entrada e saída da caixa sanitária de forma a facilitar o acesso, de acordo com as necessidades individuais de cada gato.

REFERÊNCIAS:

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Lascelles, B. Duncan X., et al. "Evaluation of client‐specific outcome measures and activity monitoring to measure pain relief in cats with osteoarthritis." Journal of Veterinary Internal Medicine 21.3 (2007): 410-416.
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Professor TreeVet

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