Gengivite Estomatite Crônica


Por Lilia Wang em 06/07/2017 15:50 | Comentários: 0

A etiologia da gengivite estomatite crônica (GEC) ainda é pouco conhecida mas acredita-se que possa ser um resultado da resposta imune inapropriada à estimulação antigênica oral associada a outros inúmeros fatores (ambiental – aumento no nível de estresse; viral – calicivirus; leucemia e imunodeficiência felina, placa bacteriana – pequenas quantidades estimulam o sistema imune; genética – raças mais predispostas incluem o siamês, maine coon, abssínio, persa).

A GEC é caracterizada por uma inflamação e ulceração simétrica, bilateral, intensa e persistente da faringe; mucosa de gengiva, oral ou do palato; fauces; ou língua. A mucosa glossopalatina e a mucosa oral dos arcos molares e pré-molares são normalmente as áreas mais afetadas.

Os sintomas mais frequentes são: halitose, pitialismo, dor, disorexia, disfagia e perda de peso. É muito comum o proprietário observar o gato "pateando" a boca (“pawing of the mouth”) como se estivesse tentando tirar algo da cavidade oral.

A hiperglobulinemia acomete cerca de 50% dos casos, no entanto, a neutrofilia não é observada no exame hematológico. Segundo Harley et al., 2003, gatos com GEC apresentam níveis séricos aumentados de IgG, IgM e IgA. Na saliva, as concentrações de IgG e IgM apresentam-se elevadas mas concentrações de IgA estão diminuídas. A importância da IgA na cavidade oral esta relacionada com sua capacidade de neutralizar patógenos e toxinas na cavidade oral, inibindo a aderência ou crescimento de microorganismos na mucosa oral ou dentes e aumentando os fatores de defesa não-específicos, mas ainda é incerto se o padrão de imunoglobulinas é a causa ou resultado desta inflamação. As IgG e IgM salivares tem a função de neutralizar os antígenos bacterianos, contribuindo para o aumento da inflamação local, por ativação do complemento.

O histopatológico deve ser realizado em casos de lesões unilaterais para diagnóstico diferencial de neoplasias, nao sendo essencial nos demais casos mas quando realizado, observa-se na maioria dos casos, infiltrado linfoplasmocítico na mucosa e submucosa.

Não existe até o momento nenhum tratamento eficaz para esta afecção. O sucesso no tratamento da GEC exige a minimização bacteriana oral, portanto, o tratamento periodontal deve ser realizado em todos os pacientes. A exodontia parcial nos locais onde a inflamação é observada é ainda a melhor opção. Aextração dentária total não aparenta trazer benefícios complementares. Segundo Hennet, a efetividade da exodontia observada foi de 55% de cura, 35% de melhora acentuada e 10% de não melhora.

O exame radiológico durante e após o procedimento de extração dentária é essencial para a detecção de lesões de reabsorção odontoclásticas e presença de raizes.

O manejo da dor é recomendado e a gabapentina tem se mostrado eficaz em gatos com dor intensa.

A antibioticoterapia deve ser incluída em todos os animais com GEC inclusive fundamental no pré-operatório. Devem ser preconizados antibióticos de amplo espectro, de preferência para as espécies de Pasteurella. Os mais utilizados são a clindamicina, amoxicilina com ácido clavulânico, espiramicina em associação com o metronidazol e a doxiciclina. O tratamento tópico diário com clorexidina 0,12% (Bright Bark&Meow-www.krpvet.com) pós-exodontia é recomendável a fim de previnir a formação de novas placas bacterianas e acredita-se que a desinfecção oral feita com clorexidine duas vezes ao dia é uma das medidas mais importantes e efetivas conhecidas.

Outros tratamentos podem ser utilizados em casos refratários:

Os corticoides são utilizados com sucesso moderado e sua indicação ainda é controversa. Em um estudo recente com predinisolona, 13 dos 16 gatos avaliados apresentaram efeitos colaterais além da resposta não favorável.Outros estudos indicam eficácia em 70 a 80% dos casos.

O interferon recombinante felino (Virbagen®, Virbac) é indicado em infecções por retrovírus e estudos confirmam a diminuição de sintomas clínicos quando comparados aos da predinisolona, usados por via transmucosa. Segundo Johnston, 2012, o interferon não somente diminuiu a inflamação e melhorou o conforto dos animais que ele tratoucom GEC, como também permitiu excluir outros tratamentos menos efetivos.

A ciclosporina é um potente agente imunossupressor e um estudo mostrou resposta mais favorável quando gatos que não recebem corticosteroides previamente (69% versus 45%). Ainda não há dados suficientes sobre seu uso em GEC. Alguns autores sugerem monitorar os níveis de ciclosporina no sangue mensalmente quando não há boa melhora do quadro clínico. Deve se obter um valor acima de 300ng/mL, caso contrário, a dose deve ser reajustada de acordo. Efeitos colaterais como vômitos e diarreia são comuns.

A terapia a laser com CO2 não é recomendada como único tratamento. Seu uso tem como objetivo queimar o tecido inflamatório resultando num tecido cicatricial. Este tecido cicatricial seria menos propenso ainflamar ao longo do tempo. A colocação de tubo esofágico, terapia com corticoide e hospitalização são frequentemente necessárias com este tratamento.

As células tronco derivadas de células mesenquimais tem sidoassociadas a habilidade regenerativa, em parte por modular a resposta imune inata e adaptativa. Estas células podem ser derivadas de vários tecidos, incluindo o tecido adiposo. No estudo realizado por Arzi et al., 2016, sete gatos foram avaliados com a terapia de células tronco. Cinco gatos responderam ao tratamento sendo três com remissão completa e dois com melhora substancial. Talvez esta seja uma excelente forma de tratamento num futuro para gatos refratários a outros tratamentos.

É importante que o proprietário seja advertido desde o começo sobre etiologia, tratamento e planejamentos futuros da doença para que haja um melhor entendimento e cooperação nos cuidados em domicílio. Um proprietário cooperativo permite um sucesso maior no tratamento.

Referências:

Chandler, E. A., C. J. Gaskell, and R. M. Gaskell. Clínica e terapêutica em felinos. Editora Roca, 2006. cap.15, p.312-25.

Matilde, Kelly Sanches, et al. "Complexo gengivite estomatite felina: revisão de literatura." Veterinaria e Zootecnia 20.2 (2013): 160-170.

Lommer, Milinda J. "Efficacy of cyclosporine for chronic, refractory stomatitis in cats: A randomized, placebo-controlled, double-blinded clinical study." Journal of veterinary dentistry 30.1 (2013): 8-17.

Arzi, Boaz, et al. "Therapeutic efficacy of fresh, autologous mesenchymal stem cells for severe refractory gingivostomatitis in cats." Stem cells translational medicine 5.1 (2016): 75-86.

Hennet, P. "Feline chronic gingivostomatitis: Extraction and what else." Veterinary Dental Forum. 2010.

Hennet, P. "Chronic gingivo-stomatitis in cats: long-term follow-up of 30 cases treated by dental extractions." J Vet Dent 14 (1997): 15-21.

Johnston, N. O. R. M. A. N. "An updated approach to chronic feline gingivitis stomatitis syndrome." Veterinary Practice 44 (2012): 34-38.

Southerden, P., and C. Gorrel. "Treatment of a case of refractory feline chronic gingivostomatitis with feline recombinant interferon omega." Journal of Small Animal Practice 48.2 (2007): 104-106.

Harley, R., T. J. Gruffydd-Jones, and M. J. Day. "Salivary and serum immunoglobulin levels in cats with chronic gingivostomatitis." The Veterinary Record 152.5 (2003): 125-129.

Baird, Kristin. "Lymphoplasmacytic gingivitis in a cat." The Canadian Veterinary Journal 46.6 (2005): 530.

 Bellei, E., et al. "Surgical therapy in chronic feline gingivostomatitis (FCGS)." Veterinary research communications 32.1 (2008): 231-234.

 Farcas, Nicodin, et al. "Dental radiographic findings in cats with chronic gingivostomatitis (2002–2012)." Journal of the American Veterinary Medical Association 244.3 (2014): 339-345.

Professor TreeVet

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